

À época de meus pais, a “Rua grande” se apresentava muito maior do que hoje. Começava numa extremidade do mundo e se findava na outra, bem mais adiante. Havia sobrados e donzelas a seduzirem os homens; havia violões em serenatas constantes; e, quase sempre, havia uma lua (por testemunha) a banhar às madrugadas com sua aparência cor de prata.
Quando não, o instante era aceso pelo lampadário – e pouco importava ser um carrilhão de pirilampos. Fazia-se a luz. E isso bastava. Imagino nos dias da juventude de meus pais; e quem sabe nos parapeitos dos prédios, agora, derribados, as raparigas com seus desejos carnais, à flor da pele.
A “Rua grande” se sustentava por meio de um comércio de fina flor. Era também, onde poetas errantes, por assim dizer, cortejavam as moçoilas de vestidos acetinados... e anáguas e bordados que passeavam por acolá. E, assim, passionais, esperavam no amor, à sombra da vida.
Transcursar a “Rua grande” era um estágio santificado. A cada passo, a confissão com o Altíssimo.
De manhã à noite, a “Rua grande”, vestia-se e despia-se; e, entorpecida, guardava-se. Um sono abalado, apenas, pelos risos sufocados de quem preferia se revelar às horas mortas. Era a deixa para os boêmio inveterados. A “Rua grande” os fazia beber a vida muito mais do que entrevê-la. Assim era a “Rua grande” de meus pais.
Hoje, puseram-lhe um vestido de paralelepípedos e depois um manto negro, iguais vestes de agouro; por fim, algumas flores. E pareceu-me que ela estava morta em um caixão, quando comparada àquela rua de feições primárias sem a força estúpida e avassaladora do progresso, a rua de meus pais. Os traços do novo facilmente nos enganam.
Àquilo enfeou a “Rua grande” de meus pais... Sem os verdadeiros matizes e na palidez acentuada, um vermelho-carmim, feito botão de rosa, não esperança. Um canteiro se ergue bem no centro da avenida e rasga a rua ao meio como a divisão do mar morto - Para que as almas de ontem pudessem também escapar. Fugidias, todas elas, as almas de meus pais, e dos pais de meus pais, para onde iriam? Sem ternura não há perspectiva.
Mesmo assim, a “Rua grande” voltou a ser transitável com todos aqueles casais, enamorados, retornando às suas calçadas de braços dados com a eternidade. Rendo-me. É só desta forma, reencarnados na lembrança, que eles poderão ver o que de mais belo existe entre os dois mundos.
Uma sombra se move devagar por entre os arranha-céus da Solón de Lucena, outrora a “Rua grande” de meus pais. Houve quem dissesse que o espectro arrastava correntes... - Meus dias não se agarrarão ao tempo vigente; na e como a areia da ampulheta, esvair-se-à para algum lugar que não o futuro. Ali não reside nada de mim. Resisti, de início; descrente, talvez. Reitero. Então, peguei o resto que havia da “Rua grande” de meus pais e dobrei em mil pedaços. O universo conspira para o fim.
Em meu testamento deverá estar escrito, em caligrafia legível, que as cinzas do que eu fora, deverão ser espalhadas naqueles confins de mundo: a “Rua grande” de meus pais. E que meu coração seja antes arrancado de mim para que fique sincronizado às batidas do relógio da Matriz até o derradeiro dos tempos.
Professor e Jornalista
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