

Aurora entrou no apartamento hospitalar com a autoridade dos que entendem a cicatriz de todo malefício oncológico.
Botou seus olhos asiáticos na mão direita dele, toda besuntada de creme hidratante, e com voz de quem não tolera “mi-mi-mi”, falou sem rispidez:
- Você só tem cinco minutos para tirar esse anel, Reginaldo! Toda a equipe já está no centro cirúrgico.
Devido ao tumor que se enclavinhava no fígado e soltava súbitas rajadas de água tóxica, dilatando as vias biliares, ele precisou colocar uma nova prótese de urgência para fazer a drenagem da bile. A anterior estava obstruída.
Eu permaneci em estado de decepção e mudez absoluta. Já tinha tentado todos os métodos conhecidos para desentalar o anel. Havia passado xampu, creme de cabelo, vaselina, que a enfermeira Tati me emprestara e, torcido várias vezes o anel vagarosamente para frente e para trás, mas aquele inchaço provisório no dedo anular da mão direita só dificultava a saída do antigo acessório.
O maqueiro, vendo nossa aflição, deixou a maca na frente da cama e saiu voltando em seguida com um pequeno alicate.
- Pronto, seu Reginaldo. Trouxe a solução. Um cortezinho tolo no canto da letra e, o senhor se livra dessa coisa.
Ele olhou para aquele jovem ainda com traços de menino e revidou como um defensor de árvore, quando vê um lenhador com seu machado amolado:
- Tá doido! Isso não é qualquer coisa, Homi! Isso é um anel de prata, tem o nome da Lua e eu não vou deixar você cortar, meu camarada! Vou tirar ele daqui. Falta bem pouco.
Aquela fala puxou meus olhos para o canto doce de seus cílios; com um brado de penúria e angústia, comecei a implorar confessa:
- Deixe cortar o anel, Poeta! Você está atrasando tudo, meu amor! A gente manda consertar depois.
Balançou a cabeça negativamente e foi para o lavabo despejar mais sabonete líquido na mão. Aurora saiu do quarto e eu fui chegando perto dele, criando coragem para reprovar aquele comportamento tão fora de hora.
Ele Continuou fazendo seu serviço, cantarolando uma música conhecida do Chico Cesar e espumando tudo de sabão.
Aurora voltou ao quarto trazendo um copo de água gelada, papel toalha e um pedaço de linha branca. Pediu para ele sentar no sofá e com a paciência de Abraão, foi alcançando promessa.
Suavemente foi avivando as certezas do começo, instalando esperança com sua cordialidade e gesto. Foi desativando o formigamento com seu poder encantatório de exorcizar inchaço.
Burilando vagarosamente e com a habilidade das bordadeiras que tecem crisântemos na fonte, deu voz de soltura ao meu nome, com um fio dental extra fino que cheirava menta.
Ele saiu do sofá e pulou na maca, aliviado. O maqueiro o levou para o setor de cirurgias e eu abracei Aurora, agradecida, engolindo o choro com motivos.
O resto da música ficou no resíduo dos cremes, no xampu, condicionador e no sabonete neutro, que eu fui limpar com o anel dele no dedo.
“Ah, Caicó arcaico”!
Zenilda Lua
Aurora Matsumura trabalha no hospital Vivalle, na cidade de São José dos Campos, no setor de UTI, e autorizou a postagem.
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