
Janeiro chegou com o molejo dos que passam voando. Dos que pisam na brasa e correm para o poço, rapidinhos.
Suspirei de alegria confessa e emancipada quando assinei a suspensão do ofício.
Férias! Oh, delícia de licença remunerada!
Agora sim. Taipas e pandorgas. Passeio nas feiras de frutas e cochilos demorados sem impedimentos ou agravo. Tabuleiro hippie, colar de miçanga, brincos de capim dourado.
Leituras diversas e café com a Brisa em todos os horários. Chinelo de couro. Corrida para a roça e cantiga de amigo pra cima e pra baixo.
Na primeira semana de doce e folguedo visitei os baixios e a Região dos Lagos. Voltando pra casa preparei o aceiro da horta para o replantio dos pés de tomates cerejas, mas despencou chuva.
Chuva sem empate que trovejava toda a Mantiqueira. Deixava o Rio Paraíba do Sul afogado em aromas. Quebrando o ressono das samambaias brabas que se esparramam nas barreiras calmas. Calcando um mundaréu de água em todo o sistema de reservas incluindo a Cantareira.
Benza Deus!
Guardei a cuia com as sementes de tomate, o enxadeco e a pá. Carecia esperar a estiagem. Enquanto isso fui curtir no Face tudo que o Wandecy Medeiros postava: a virada do nascente, as nuvens pesando numa cor amornada. O cheiro da chuva sertaneja encostando-se à porteira e balançando o vento.
Meu irmão também escreveu sobre o fulorar da jurema. Poetizou com a aguinha barrenta que escorreu fina pelos pés do nosso riacho.
E o Pr. John, que é um típico anunciador de natureza deixava todos felizes ao noticiar cada milímetro de água alcançado na sua Reserva Verdes Pastos. Embelezava a rede social com as fotos das flores de malva, pinhão, favela e do maracujazinho-do-mato que roxeava-se agarrando a cerca com suas folhas enverdecidas e gotejadas. Água fresca da grota caindo em borrifos de festa clareada. Rãs e sapos em cantoria. Grilos e cigarras. Pássaros, nem se fala!
Foi nesse florejar santo que descobri uma poça de água destemida e perseverante na borda da laje de casa. Desbotando a cor areada da parede limpa. Corri contra dengue e contratei pedreiro.
Já que a chuva não passava levei o carro para manutenção e conserto da tampa arranhada. O mecânico lembrou que janeiro é um mês, mas parece uma pia que pinga emperrada. Alegando o remanso das águas, demorou uma semana para fazer os reparos.
Os dias continuaram molhados. Fui cuidar dos dentes enquanto as nuvens prevaleceram desmaiando o sol, melindrando estradas, enfileirando lesmas e caracol.
Chegou afinal à última quarta-feira de minhas férias.
A vizinha acaba de me entregar um prato de bolo. Vou fazer café porque a tarde ainda é uma pistolinha d’água brincando de espirrar mole até esvaziar todos os baldes de água que cabem no céu.
Daqui a pouco até as canas mais doces também se curvarão aos roçados de milho todos embonecados.
Deus é fiel!
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